TEA e a Narração de Histórias

A criança aprende os princípios da contação de histórias nos primeiros três anos de vida e as crianças com Transtorno de Espectro Autista (TEA) não fogem a regra.

Foto: José Robson – Na foto: Icaro

As Histórias de Icaro

Sou contador de histórias desde que me reconheço como um ser interativo. Já escrevia histórias aos meus nove anos de idade e aprendi a ler e escrever entre cinco e seis anos, observando meus avós lerem a luz de velas e sentados à beirada da cama.

Aos trinta e três anos fui pai pela primeira e única vez. Um encantamento surgiu em minha vida na forma de um menino de asas longas, olhar de éter e espírito de bondade e luz. O Icaro veio à terra me ensinar das coisas que o eu já havia me esquecido ao longo do caminho.

Todas as histórias e músicas infantis que ora eu usava nas minhas apresentações ganharam um novo significado e importância. Já não eram ferramentas de trabalho, mas a vivência de um pai descobrindo nas interações com o filho, o quanto a palavra, ritmos e narrativas, tanto orais, quanto gestuais, surtiam respostas interativas entre pais e filhos. .

A linguagem oral surgiu tardiamente no desenvolvimento do Icaro, apesar dele responder bem aos estímulos e atividades. Tanto eu quanto a mãe do Icaro, notamos que ele gostava de repetições, movimentos circulares, sequenciamento de objetos, geralmente do menor para o maior, ou empilhamento. Como demorou bastante pra falar, usava de gesticulação e palavras incompreensíveis, mas com sonoridade. E as repetições também começaram, a partir dos nove meses, a ser externadas fisicamente pelo Icaro. Movimentos de pêndulo do tronco, depois, os flaps com as mãos.

Entrando na pré-escola

Na primeira semana de escola, a professora, que estava com sua primeira turma, após a formação em pedagogia, chamou-nos e disse que o Icaro tinha traços do TEA (Transtorno do Espectro Autista). O Icaro chamava a professora Jéssica de “Néssicas”. No início do ano dois mil o Espectro Autista ainda era pouco abordado no Brasil e tivemos certas dificuldades em conseguir diagnóstico e acompanhamento especializado.

Ícaro e a Professora “Néssicas” – Mogi das Cruzes, SP

Mas, nesse momento, era imperiosa a continuidade das atividades lúdicas, artísticas e interação. E a contação de história, o teatro de fantoches, as brincadeiras orais e gestuais das histórias que eu e a mãe do Icaro tanto usávamos em nossas apresentações, foi o porto seguro em que ancoramos todo o trabalho para o desenvolvimento desse nosso menino.

Quando queríamos que o Icaro reagisse a determinadas situações, criávamos roteiros, ou visuais, ou narrativos, ou ilustrativos.

Assim, uma ida ao supermercado virava um “storyboard”  com cada etapa, desde os preparativos antes de sair, durante as compras e até a chegada novamente em casa. Lavar as mãos e as etapas do banho também eram desenhadas pela mãe do Icaro que logo se interessaria pelo desenho. Algumas vezes, a explicação das ações e acontecimentos se faziam através de  interpretações, outras, desenhos, ou mesmo diálogos com um dos fantoches que usávamos nos eventos. Várias vezes ensaiávamos diálogos,ou com fantoches, ou nós mesmos construímos um roteiro simples para que ele entrasse na conversa e interagisse de forma simples, como pedir um copo de água.

E aos poucos vimos que o Icaro conseguiu, não só compreender, como reproduzir parte do processo narrativo, fosse através das “garatujas” que aos poucos se transformavam em desenhos narrativos, ou através de palavras soltas com intenções de frases. Ele estava se apropriando do processo da narrativa, tal qual qualquer criança da ida dele, porém com todas as peculiaridades de uma criança com TEA.

Copiando de “memória” um grafite visto em um muro em via pública do Grafiteiro Kerrel.

A Descoberta da Narrativa

Certo dia ele nos chamou e insistiu que o seguíssemos até a sala. Havia empilhado muitas latas de achocolatado, tanto, que ficou maior que ele. E começou a gesticular e falar palavras soltas, enquanto mostrava e circundava a pilha de latas.

Durante a evolução daquela narrativa, descobrimos que ele contava a idade dele a uma consulta, que ficava em um andar acima do quarto, não me recordo exatamente. E como as crianças do Espectro Autista, na maioria, como o Icaro, tem uma “ecolalia cognitiva”, além da verbal, ele estava narrando a situação acontecida a mais de 6 meses atrás. Estava “contando história” de uma das suas vivências. Ele começou a usar a visualização para demonstrar ideias e pensamentos, auxiliando a sua oralidade que ainda, e ele estava tendo a percepção disso, não estava totalmente compreensível para as pessoas.

O prédio de latinhas de Icaro. Em setembro de 2020, aos 16 anos, ele finalmente vai morar no seu prédio conquistado ao longo de muito amor com a mamãe dele.

O desenvolvimento e interação dele com as pessoas, na escola e com as atividades propostas evoluíram rapidamente, e tanto, que não foi preciso nem a medicamentação, optamos em não oferecer. E aqui vale lembrar que cada caso é diferente e com necessidades e possibilidades diferentes.

Foram inúmeros caminhos, escolhas e adaptações até ele chegar aos quinze anos, em 2019. Os desafios hoje continuam, mas com as escolhas que ele mesmo faz e as suas próprias decisões e consequências a respeito delas.

O Poder Lúdico da Narrativa no Autismo

As crianças pequenas contam histórias na maioria das brincadeiras lúdicas que realizam, sejam nos jogos tradicionais, ou no faz de conta. Toda a estrutura da narrativa oral já pode ser observada nas brincadeiras e interações das crianças. Tal qual  o Icaro construindo um prédio para narrar um acontecimento passado, e passando a transformar o significado de cada palavra numa evolução cênica para a nossa compreensão.

Todas as crianças se  expressam narrativamente durante as atividades lúdicas. É assim, segundo “Bruner”, que diz ter uma estrutura gramatical perceptível no ato de brincar das crianças pequenas. Elas constroem o pensamento gramatical à medida que experimentam jogos e brincadeiras. Mesmo que não se expressem com palavras, as condições do brincar e as suas ações durante a atividade, mostram um comportamento  narrativo.

Icaro ensaiando suas primeiras palavras, incentivado pela fascinação de um microfone “desligado” porque ele, como a maioria dos autistas, tem alta sensibilidade auditiva.

Nesse sentido, como a linguagem ainda é prematura e carece de um vocabulário, tanto de vivências quanto verbal, a figura de um “contador de história”, seja ele um dos pais, ou facilitador, ajudará a criança a encontrar a linguagem necessária para se expressar e compreender gramaticalmente seus pensamentos e sentimentos.

Frequentemente com o Icaro, quando ele vinha nos mostrar um objeto, e não raras vezes, propúnhamos transformar o interesse dele pela forma em algum personagem lúdico, ou algo que fosse além da forma para atingir a criação imaginativa.

Por exemplo, quando ele vinha com um pedaço de madeira, ainda sem qualquer  narrativa presente no olhar, mas apenas interessado na estranheza da forma do objeto, fingíamos que era um dinossauro, ou uma nave espacial, com sons e movimentos.  Isso ativava outras formas de brincar com aquele objeto, que poderia durar vários minutos, e, no caso do Icaro, até mais de uma hora. A criação de um vocabulário e a retenção de uma “memória” se concretizava.

A Memória no Processo Narrativo e a Ecolalia

Maria Daniele (mãe) e Ícaro interagindo em ensaio do Grupo de Dança Popular Jabuticaqui

Com a ecolalia do Icaro, percebemos que as lembranças tardias dele poderiam ser usadas a favor da construção de uma narrativa. Isso pôde ajudá-lo no desenvolvimento da linguagem oral. Ele não conseguia se expressar no momento de cada evento, mas somente mais tarde. Desta forma, depois de resolver o encadeamento das sensações, conseguia descrever, ou narrar, ou pedir algum esclarecimento de algo que não chegava a um entendimento.

É um processo que se aplica a qualquer criança pequena, com ou sem TEA. Podemos desenvolver a narrativa abordando as lembranças das crianças, tanto na escola, durante interações entre elas e seus educadores, quando em casa, com familiares.

A abordagem das lembranças pelo facilitador mais velho, ajuda a internalizar  situações e estimula a criança a construir uma ligação entre seus pensamentos atuais aos do passado, contribuindo para a visualização e significados do que ocorreu.

A narrativa ganha simbolismo e ajuda no desenvolvimento cognitivo da criança, enriquecendo sua experiência e, logicamente, sua expressão oral, gramatical e social.

Como referência, muitas vezes, mostrei ao Icaro algo que ele tinha desenhado, ou que nós compramos, como , por exemplo, um livro, um boné, ou mesmo uma fotografia de alguma atividade. Procurava  reativar a memória dele naquela situação: quando, onde, com quem.

Esse estímulo para se narrar adventos acontecidos cria uma relação mais próxima e afetiva que perdura para a fase adulta. E os detalhes que ambos se lembram, mesmo  que sejam fragmentados, ensinam e interiorizam o espírito da narração colaborativa, que se desenvolve  em diálogos, discussões e argumentações ao longo da vida.

A Concretização de Personagens Imaginários

Para contar uma história, seja ela tradicional, folclórica, ou urbana, lançamos mão de inúmeros recursos, tais como:

Historinhas com narração improvisada com personagens clássicos era uma diversão
  • Fantoches
  • Objetos
  • Dobraduras
  • Livros
  • Músicas
  • Ilustrações

Há uma lista grande de recursos e como usá-los. Eu e a mãe do Icaro ensaiávamos as histórias e usávamos, não raras vezes, o próprio berço como palco dos fantoches, ao alcance, não só dos olhos, mas das suas mãos. Havia bonecos que ele tinha mais afinidades, como um macaco e um elefante, em faixas etárias distintas. Os bonecos são interlocutores, ajudam nas rotinas pessoais, tais como escovar os dentes, dormir, lavar as mãos e outras ações do dia a dia. Abusávamos disso.

Acontece que os personagens eram apresentados por nós, pais, e tinham uma personalidade adquirida através de nós. Faziam coisas que queríamos que o Icaro aprendesse, ou reagisse. E funcionava. E funcionou por um longo tempo. Mas nosso menino queria ir além. Seus desenhos evoluíram de garatujas para cenas e criação de personagens, monstros e grupos de crianças, com nome, biografia, e suas próprias personalidades.

Ele estava reproduzindo, porém, com sua própria imaginação criativa, personagens para se relacionar com o mundo a sua volta, da mesma forma que até então, relacionava-se com os fantoches que nós apresentávamos a ele.

O ato de se apoderar de um instrumento de comunicação e adaptá-lo para as suas necessidades de expressão e compreensão do mundo é uma evolução sofisticada da narração de histórias. Agora, ele, o Icaro, tinha nas mãos um canal para expor suas ideias nas vozes de personagens que ele próprio criara. E cada personagem abordava o mesmo assunto de formas distintas, de acordo com suas próprias características, índole e personalidade.

XINILI E RIQUEZAS

É o jogo mais fantástico dos mundos. É super grátis… esse jogo é super legal e vai te deixar eufórico.

PROTAGONISTA: Xinili – um mocinho do jogo. Ele vai salvar o mundo.

ANTAGONISTA: Ranco – Um vilão do jogo. Ele vai tentar dominar o Mundo.

RANCO comanda todos os exércitos a hipnotizar todos os governos para estragar toda a população.

XINILI e sua equipe fazem as infinitas aventuras, lutando contra os caras Alibabas (ajudantes de Ranco) para estragar seus planos malignos e anular a hipnose das pessoas inocentes.

As batalhas são feitas pelas mentes.

(Criação e desenho dos personagens: Icaro Oliveira Santos)

A narração de histórias fechava o ciclo. Agora, tinha personagens que sofriam e causavam ação e reação, com consequências de acordo com seus atos, e o Icaro expressava suas próprias histórias e vivências através da narrativas dos seus personagens.

Hoje, aos dezesseis anos de idade, o nosso Icaro é um perguntador e narrador voraz. Fala das coisas que lê e das coisas que ouve. E se interessa em saber a razão de acontecimentos que impactam na vida, tanto familiar, quando das pessoas em geral. 

Ainda tem fixação por temas sensacionalistas que lê, ou assiste na televisão, mas aborda os temas com um aguçado senso ético e argumentos de dar inveja a muitos doutores em sociologia.

Icaro e suas HIstórias - TEA - Transtorno do Espectro Autista

Canal “Pingo de AR-Sunto – do Jovem Icaro

Fotos de José Robson, que teve a sorte e o privilégio de ser o pai de Icaro.

18 thoughts on “TEA e a Narração de Histórias”

  1. Por favor, em encaminha sua vivência no meu email, quero ofertar nas reuniões para essa família. Vejo muita possibilidade por meio do lúdico no geral como fonte primário de todo ser para um ótimo desenvolvimento… E contar histórias é uma arte e metodologia que entra aonde o convencionalismo de nossas ações não consegui alcança….

  2. Quanta emoção numa história que também faz parte da minha vivência. Apesar dos transtornos nunca serem iguais. Minha filha tem uma sindrome e tem autismo severo.
    A estimulação através de brincadeiras , jogos e muita contacao de história é muito importante para o desenvolvimento de qualquer criança, e muito mais para quem tem TEA.
    Me emociona ler relatos de uma família que apoia seu filho e caminha com ela com afeto e comprometimento.

    1. Oi Ana, é um caminho difícil poque é trilhado por poucos e tem poucas informações. Mas cada descoberta é um mundo que se abre… Recebemos tanto quando nossas crianças azuis pousaram em nossas vidas, tanto…

  3. Amei o texto sobre TEA. E fiquei encantada com o vídeo apresentado pelo lcaro. A narração foi perfeita e muito engraçada com o urubu. A sua interação deixou bem claro que tudo é possível, mesmo sendo uma criança autista. O Icaro se comunica muoto bem com o personagem urubu. Eu achei lindo! A narração do filme foi perfeita e ficou super divertida. Icaro vc é um super narrador de história. Parabéns aos dois. 😘

  4. Muito emocionante o artigo,onde deixou um exemplo de como devemos nos comportar com relação a crianças que possuem TEA ou outra deficiência. Devemos proporcionar as mesmas experiências para todas as crianças independente de como sejam. O ato de contar histórias traz muitos benefícios.

  5. Muito lindo e emocionante o artigo apresentado. E como a narração de histórias ajuda muito na vida e formação de milhares de pessoas. Sejam crianças, adultos, portadores de necessidades especiais ou não. Nos ensina a ter determinação e asuperar os obstáculos.

  6. Muito emocionante o artigo apresentado. Pude ver como que a narração de histórias ela contribuí na formação e na vida de todos. Esse artigo é um exemplo de superação, mostra um menino muito talentoso e cheio de conquistas pela frente. É um grande narrador de histórias. O artigo também mostra como trabalhar as histórias com crianças que tem TEA. É muito lindo ver o apoio que família deu para o Icaro.

  7. O artigo apresentado é muito bonito e emocionante. Como contar histórias ajudou milhares de pessoas a viver e treinar. Quer se trate de crianças, adultos, pessoas com necessidades especiais. Nos ensina a resolver e superar obstáculos.

  8. É uma história muito legal ,interessante e emocionante .
    Para uma pessoa que ama a contação de historia com certeza é muito gratificante .

  9. O artigo ele é maravilhoso, nos mostra que com a narração de uma história ela pode nos ajudar muito, principalmente a superar milhares de obstáculos.

  10. A História do Ícaro é maravilhosa. A sua empolgação como narrador é mágico! Penso que a contação de história enriqueceu o desenvolvimento de compreensão dessa criança.

  11. Como contar histórias, cada pessoa tem seu jeito, e com pessoas com TEA, é lindo de se ver, como foi sempre mostrado, observado e realizado desde pequeno a agora adolescente, junto com apoio da família.
    A narração de histórias, pode ser tanto eficaz para um adulto quanto para uma criança pois traz histórias surpreendentes, e divertidas.
    O Ícaro desde pequeno teve essa convivência no mundo da contação e narração de histórias desde criança ele observava e aprendia o Ícaro cresceu se interessou e agora ele é um narrador de histórias, isso nós faz pensar que tudo é possível.

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