Os Tipos de Contos e Histórias

“Uma criança de dez anos que lê como quem respira, que gosta de ler, que como quem está usando mais um, além dos seus cinco sentidos, estará preparada pra receber toda a informação de que vai necessitar para enfrentar a vida.

Ziraldo

A classificação de estilos literários voltada para as crianças, ao meu ver, é um importante estudo da construção narrativa iluminando elementos que compõem sua estética.

Para as crianças, que é a ouvinte, ou leitora fim de cada uma das divisões, esses elementos apenas tem a função de “causar” sensações diversas e cada conto, sendo importante, na verdade, a diversidade de estilos, tanto na forma literária, quanto na apresentação oral de cada peça.

A história da literatura infantil, seus precursores e autores principais, é exaustivamente estudada, difundida e abordada em TCC’s, teses, seminários, artigos e livros de referências didático-pedagógicas. Por isso, não vou me ater a essa abordagem, haja vista que seria muito raso e temos dezenas de textos excelentes a esse respeito. Siga o link para a matéria em PDF de “Aline Luiza da Silva, publicada pela Revista Eletrônica de Graduação do UNIVEM, sob o título “TRAJETÓRIA DA LITERATURA INFANTIL: DA ORIGEM HISTÓRICA E DO CONCEITO MERCADOLÓGICO AO CARÁTER PEDAGÓGICO NA ATUALIDADE“.

Vou me dedicar a especificidade do nosso curso que é a narração de histórias e elementos que ajudem a criar um plano de contação. Para isso, compreender a divisão dos textos narrativos, principalmente contos, causos e lendas me parece mais produtivo no âmbito da nossa proposta.

A Divisões do texto Narrativo

Existem muito estudos sobre a divisão literária infantil, e sobre cada um detidamente. Um dos estudos mais conhecidos e difundidos no mundo é de “Aarne-Thompson” que definia em três grandes grupos, com centenas de outras vertentes cada, a saber:

  • Contos de animais;
  • Contos comuns;
  • Anedotas, ou facécias.

Já em 1861, atualizou seu estudo em um livro em que as três vertentes se subdividiram em sete tipos de histórias. Para conhecer mais sobre essas divisões entre no link a seguir: Aarne-Thompson.

Luis da Câmara Cascudo

Como referência, sempre gosto de me aproximar de autores e folcloristas regionais e locais. Eu, particularmente, uso muitos contos e lendas brasileiras como referências, assim como inúmeros autores. Um dos maiores pesquisadores do nosso folclore e tradição oral foi “Luis da Câmara Cascudo“. E uma das obras de maior valor cultural para a preservação dessa parte da nossa história foi o “Dicionário do Folclore Brasileiro”.

Com uma divisão com tópicos similares aos enunciados por Thompson, Câmara Cascudo nos agraciou elencando a sua própria divisão tupiniquim,mas com valor universal e, acredito, a mais rica entre os estudos da mesma área, mesmo se comparada a pesquisadores de outras culturas.

A classificação construída por ele, em si, já nos dá pistas importantes de quando e como contar, e até mesmo para que faixas etárias, se compreendermos como é o desenvolvimento e aprendizagem infantil, temas das matérias anteriores. E justamente por isso, coloquei essa divisão exatamente nesse ponto do nosso curso.

As Características do Conto Popular

Para Câmara Cascudo, um conto deve ser enraizado no imaginário do povo de determinado lugar, mesmo que ele surge com variações em muitos regiões. A memória coletiva é o autor daquela história, não traz referência de localidade específica, nem indivíduos determinados, revelando ações, razões e personagens arquetípicos, facilmente reconhecíveis pela cultura dos seus moradores locais. Cascudo cita quatro características essenciais para que um conto seja reconhecido como popular:

  • Antiguidade;
  • Anonimato;
  • Divulgação;
  • Persistência.

Uma das características que é alvo de nosso estudo, a “divulgação”, pressupõe que a transmissão mais importante daquele conto seja pela oralidade, afim de manter viva a história na cultura de uma certa comunidade. Mesmo que o conto que seja colhido e registrado para preservação histórica e estudo, naquela região ele deve persistir oralmente para que seja popular.

Tal qual Aarne-Thompson, mas indo além de uma divisão, Câmara Cascudo promoveu uma sistematização conceitual dos contos, com critérios literários ligados não só ao tipo de texto, mas a sua estrutura e temas recorrentes:

  • Contos de encantamento: magias, contos de fadas, supernatural.
  • Contos de exemplo: bem versus mal, intrigas, heróis, inversões.
  • Contos de animais: fábulas, personagens animais com ações humanas.
  • Facécias: troça, desdenho, ridicularização, personagem popularesco
  • Contos religiosos: intervenção divina, fé, crendices e superstição.
  • Contos etiológicos: o “por que” das coisas
  • Demônio logrado: acordos e apostas com o diabo em que ele perde.
  • Contos de adivinhação: charadas, enigmas provas de conhecimento.
  • Natureza denunciante: elementos naturais revelam crimes, segredos.
  • Contos acumulativos: encadeamento de ações, repetições gradativas.
  • Ciclo da morte: a morte vence engodos e peripécias do homem.
  • Tradição: da sabedoria popular das coisas e da natureza

O resumo acima é sem dúvida, sintética e simplista, mas nos leva a perceber que muitos dos contos que ouvimos quando crianças, ou lemos no livros destinados às crianças, encaixam-se perfeitamente em pelo menos uma das divisões, senão em duas.

A partir de agora,toda vez que um conto for citado no curso,ou fora dele, tente imaginar em que divisão ele se encaixa. Estude seus elementos e entenda a construção histórico-popular do texto.


O Artigo acima faz parte integral do “Curso de Contação de Histórias” da Cia ArtePalco. Não pode ser reproduzido, copiado, ou utilizado sem prévia autorização.

INSCREVA-SE: Se deseja participar do curso, inscreva-se em aqui.

9 thoughts on “Os Tipos de Contos e Histórias”

  1. Amei. Saber o que cada se enquadra , o que será trabalhado em cada tema é maravilhoso . Já está salvo em meu caderno rs .

  2. Todos os tipos de histórias são relevantes, mas acredito que pra contação de histórias são interessantes abordar os contos.

    1. Toda a formação recebida sobre os contos nos traz uma riqueza de detalhes e magias. É o descobrimento do saber! Que fazem nos relembrar alguns períodos de nossa infância. O belo de tudo isso é a sensação de querer ser contadores de histórias.

  3. O conto é uma narrativa literária caracterizada pelo tamanho curto, com o foco em determinado acontecimento. Além disso, são histórias fictícias e com moral no final, como no caso dos contos de fadas.

    A estrutura do conto conta apenas com um conflito, o clímax – parte de maior intensidade na história.

  4. TIPOS DE CONTO – LITERATURA
    9 de setembro de 2018Artur Laizo EscritorLITERATURA5 comentários
    O QUE É UM CONTO?

    Conto é uma narrativa de ficção, ou não, que cria um cenário de seres, de fantasia ou acontecimentos. Ele apresenta um narrador, personagens, ponto de vista e enredo. O conto possui uma narrativa curta, menor do que o romance e possui apenas um clímax.

  5. Construir conhecimento sobre os contos, é estimular a capacidade de criativa de quem ouve, as histórias tem o mesmo sentindo, podendo explorar a linguagen oral e escrita. Pensar na faixa etária é o melhor para uma escolha adequada.

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